Muralhas invisìveis


Janeth Oliveira Naves

A luminosidade do dia ofuscava os olhos de Arminda e Sebastião. Caminhavam com dificuldade, as distâncias eram grandes, embora na planura tudo parecesse perto. Subiram até o mirante da Torre de TV e de lá puderam avistar a cidade inteira. Cícero segurou no braço da mãe e a conduziu até o parapeito para que ela apreciasse melhor a paisagem. O pai veio logo atrás e, rapidamente, se apoiou no guarda-corpo.
O horizonte era uma linha reta para qualquer lado que se olhasse. À frente, a uns dois quilômetros dali, a Esplanada dos Ministérios finalizando no Congresso Nacional; o Palácio do Planalto à esquerda, o Supremo Tribunal Federal à direita e os prédios dos Ministérios, simetricamente dispostos. Cícero apontava para um lado e para outro, gesticulava e falava alto para que os pais pudessem ouvi-lo, apesar do vento. Mostrou a Catedral para a mãe, depois chamou o pai para perto de si e indicou dois edifícios espelhados, altos e imponentes, e falou com os olhos brilhando que havia ajudado a construir aqueles prédios.
Arminda viu as águas brilhantes do Lago Paranoá ao longe e chamou a atenção do marido: “Olha, parece o Araguaia visto de longe”. Ficaram ali por mais alguns minutos enquanto Cícero falava, exibindo familiaridade com o cenário. Os pais o seguiam em silêncio diante da visão de tantas coisas extraordinárias, tão diferentes de tudo que conheciam.
Desceram da Torre e se dirigiram para a Esplanada. A caminhada em linha reta era longa, o sol estava forte, mas o vento constante tornava a temperatura agradável. Ao passarem pela Catedral, Arminda cochichou algo para Sebastião e Cícero quis saber do que se tratava. Ela disse que aquele prédio cheio de pontas era muito estranho, não se parecia em nada com uma igreja. Ao entrar, ela se deteve imóvel por um bom tempo, contemplando os enormes anjos dependurados no vão central e os vitrais azuis que ondeavam o teto afunilado. Pai e filho percorriam toda a nave, enquanto Arminda aproveitou para sentar-se em um banco, juntou as mãos em oração, porém o seu olhar voejava inquieto.
Continuaram o passeio pela larga via central que parecia não acabar nunca. Chegando ao Congresso Nacional pararam de frente ao espelho d’água. Arminda e Sebastião emudeceram diante da grandiosidade dos edifícios e da vastidão dos gramados bem aparados. A escala e as formas originais dos monumentos atraíam os olhares curiosos que corriam em todas as direções, enquanto o filho continuava a explanação para que os pais compreendessem o que significava cada um daqueles lugares.
O sol já ia declinando quando, finalmente, Cícero deu por encerrado o passeio. Tomaram o ônibus e rumaram para o Itapoã, um assentamento depois da barragem do Paranoá. Entraram por um corredor estreito e escuro que dava acesso ao barracão, nos fundos do pequeno lote onde moravam os sogros de Cícero. Ao entrarem na sala, tiraram os sapatos enlameados para não sujar o piso de cimento vermelho, encerado com esmero. A mesa já estava posta para o jantar e sobre ela uma panela enorme de Maria-Isabel exalava um cheiro apetitoso; fora preparada com a carne de sol trazida por Arminda. Ao lado, a caixinha de doce de buriti para a sobremesa, também presenteada por eles. Carminha e os três filhos pequenos aguardavam assistindo televisão para distrair a fome.
Durante o jantar, Cícero descreveu o passeio que fizeram e, animado, falou de seus planos para o futuro: conseguir um lote ali perto e construir uma casa só para eles. Depois foi se acomodar com Carminha e as crianças no único quarto da casa.
Na sala pequena e abafada, Sebastião e Arminda tiveram dificuldade para dormir no sofá-cama, cheio de molas quebradas pelas estripulias dos netos. Naquela noite, ela sonhou com a sua rede de algodão balançando sob a brisa na varanda de sua casa, as imagens se sobrepondo e se misturando, a rede branquinha e os arcos de mármore do Palácio do Planalto.


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Janeth Oliveira Naves

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