O avesso do avesso


Janeth Oliveira Naves

Gosto de caminhar pela planura e contemplar o céu infinito de Brasília. As árvores esparsas no extenso gramado não me impedem de ver a linha do horizonte. Quanto tempo levei para chamar este lugar de lar eu não sei, apenas sinto. O que era o avesso tornou-se o direito; o estranhamento tornou-se
familiaridade.
Isso me faz lembrar da primeira vez que ouvi “Sampa” de Caetano Veloso. Foi amor à primeira vista, não precisei de um tempo para aprender a gostar desta música. Hoje me pergunto por que algo tão corriqueiro ficou registrado em minha memória. Eu estava dirigindo em uma rua movimentada de Goiânia e, naquele instante, eu nem sonhava que um dia teria que deixar a minha cidade. O fato é que a letra desta canção expressa bem o que eu sentiria, muitos anos depois, quando cheguei a Brasília: “quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto... É que narciso acha feio o que não é espelho..."
A princípio, foi o estranhamento; a arquitetura, a modernidade e o traçado singulares da cidade eram o avesso da regularidade tão familiar. E a mistura de traços, costumes, culturas e sotaques de seus moradores formava um mosaico extraordinário em que, inicialmente, não vi o meu rosto refletido.
Depois veio o encantamento, não sem antes um exercício de aceitação do que não era espelho. Uma construção lenta e consciente de relacionamentos, carreira e, sobretudo, de memórias; um longo processo de adoção às avessas.
Passados tantos anos, acho que encontrei a resposta para não ter me esquecido do momento, aparentemente sem importância, em que ouvi aquela música pela primeira vez. Dizem que para o espírito não há tempo nem espaço. Ele pode viajar para outras épocas ou lugares e ao voltar não consegue trazer à compreensão o que viu ou o que viveu. Porém, alguns vestígios permanecem no inconsciente e podem vir à tona como um deja vu.
Talvez, lá no fundo eu já soubesse que muitos anos depois, assim como na música, eu teria que passar pelo desafio de viver em uma cidade muito diferente da minha. Pode não ser uma explicação lógica ou racional, mas este devaneio satisfaz, por hora, o meu desejo de compreender um episódio tão significativo da minha vida.




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Janeth Oliveira Naves

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