Viagem no tempo


Janeth Oliveira Naves

Joyce Avelar estava prestes a realizar a jornada pessoal mais importante de sua vida. Sigilosamente, ela se posicionou no túnel e seus dois fieis assistentes digitaram as coordenadas. Não ousavam contrariar as ordens da renomada cientista e uma das principais colaboradoras daquele projeto. Ela era professora de física em Londres e participava das mais importantes organizações internacionais na área de astrofísica. Dedicou-se, desde a juventude, às pesquisas sobre buracos negros e questões relacionadas a viagens no tempo, além de ter participado de grupos de estudo que deram continuidade às teorias de Einstein e Stephen Hawking, que lançaram as bases para os projetos que permitiram a construção do túnel de teletransporte quântico. Para vencer os paradoxos que impediam essas viagens, como a entropia do universo e o princípio da conservação de energia, desenvolveram um dispositivo capaz de projetar imagens holográficas através do tempo, o que possibilitaria a interação do usuário com novas dimensões de realidade e com suas personagens.
Em meio a um ruído ensurdecedor, ela começou a experimentar sensações estranhas, que culminaram em um total arrebatamento de si mesma e a visualização de espectros de outras realidades até se fixar em uma delas. Percebeu-se diante da casa que conhecera muito bem. A terra estava encharcada e o céu nublado anunciava mais chuva. Passou pelo corredor que dava acesso ao quintal dos fundos e ficou espreitando atrás de uma árvore. Reconheceu a criança que saiu correndo para o quintal e foi encontrá-la brincando no balanço debaixo da grande mangueira. A menina olhou para a imagem daquela mulher se aproximando e se intrigou com a figura estranha no quintal de sua casa.
— Oi, Jô! – disse Joyce para a criança.
— Oi! – A criança ficou olhando para a desconhecida esperando que ela se apresentasse.
— Você deve estar me estranhando, não é?
— É. Você é de verdade?
— Pode não parecer, mas sou de verdade.
— Eu nunca vi você aqui em casa. É amiga da mamãe?
— Sou... sou muito mais do que amiga. — Joyce pensou em explicar de onde vinha, mas retrocedeu; era pedir demais que uma criança de seis anos compreendesse como chegara ali.
— Eu estou aqui pra te pedir uma coisa muito especial. É muito importante mesmo, e acho que você é a única pessoa que pode fazer isto.
— E o que você quer me pedir pra fazer? — perguntou a menina, olhando curiosa para a estranha figura.
Joyce se posicionou bem de frente para a menina, se abaixou e mirou fixamente aqueles olhos negros tão vivos e alegres, que em breve não seriam mais os mesmos.
— Jô, o seu pai vai viajar daqui a pouco, não vai?
— Como é que você sabe?
— Não importa como eu fiquei sabendo. O que importa é que você precisa me ajudar a fazer ele desistir. Essa viagem não vai ser boa para ele, nem para vocês. Pode acontecer uma coisa muito ruim. Ele não pode ir!
Os assistentes ouviam a voz de Joyce falando em português e a viam se movimentar; não sabiam o que estava se passando, mas presumiam o sucesso da experiência.
— Mas como vou fazer ele desistir? Foi o chefe dele quem mandou. — A menina ficava cada vez mais confusa. — Sabe, a mamãe já me explicou... quando eu choro querendo ele, ela me fala que ele precisa trabalhar para poder comprar as coisas aqui em casa.
— Eu sei, Jô, mas é só desta vez. Por favor, me ajude a conseguir isso! — falou em tom de súplica, tentando ser convincente. — No futuro, você vai ver que eu estava certa. Olha, eu já pensei em tudo. É só você dizer pra ele que está com muita dor de cabeça e de barriga, que já vomitou e que não está enxergando nada. Mas tem que fazer cara de doente também, viu? Pode até fingir que está desmaiando quando chegar perto dele. Combinado?
— Sei não... será que ele vai acreditar?
— Prometa que vai tentar? Por favor, pelo amor que você tem a ele!
— Tá bom. Vou tentar.
— Então vá lá e faça tudo como eu te falei e depois volte para me contar. Vou ficar te esperando.
A menina correu de volta para casa e ao entrar na cozinha viu o pai, que a buscava.
— Oi, Jô, estava te procurando para me despedir. Papai já está indo. — E pegou-a no colo antes que ela pudesse fingir o desmaio.
— Paizinho, não vai não! Eu tô muito mal, a minha cabeça e minha barriga estão doendo muito e eu estava vomitando lá fora. Fica aqui. Me leva no médico?
— Escute filha, já conversamos sobre isso. Esse é o meu trabalho, eu tenho que ir. Você vai ficar com a Matilde e já, já a sua mãe vai chegar do trabalho e vai te levar ao médico. Eu preciso ir agora.
Sentindo aquele aperto no peito tão familiar que precedia as suas viagens, ele apertou a filha entre os braços, deu um beijo em sua testa e em seguida a pôs no chão. Chamou Matilde e recomendou que ela desse aquelas gotinhas amargas que Jô detestava.
A menina, decepcionada, só teve tempo de ver o pai pegar a mala, acelerar a vespa e deixar no alpendre aquele cheiro de combustível do qual ela jamais se esqueceria. Depois, correu para o quintal e ainda conseguiu ver a imagem da mulher se desfazer e desaparecer da mesma forma que surgiu.
No dia seguinte, quando o padre, amigo da família, veio dar a notícia da morte de Marcelino, a menina se lembrou do que a estranha tinha lhe dito no que, agora, parecia um sonho. E, além da tristeza, ela guardou consigo a sensação ruim de que poderia ter feito alguma coisa para impedir a viagem do pai e que não foi capaz de fazer.
De volta à realidade do laboratório, Joyce foi recebida com curiosidade pelos assistentes. Contou o que sucedera, evitando os detalhes, e recebeu cumprimentos entusiasmados pelo sucesso da viagem. Apesar do feito inédito, ela não sentiu nenhuma alegria pela realização.
Após todos saírem, ela ainda permaneceu ali, contemplando o túnel. Não temia a punição que poderiam sofrer, pois os testes desse equipamento ainda não estavam autorizados, o que a inquietava era a conclusão contundente.
Apesar das máquinas sofisticadas, dos conhecimentos acumulados sobre espaço-tempo, de todas as teorias que tentaram explicar o universo e que possibilitaram as viagens através do tempo, muitos paradoxos continuavam sem explicações. Até aquele momento, as tentativas para alterar o curso da história não tiveram sucesso. A teoria da causa e efeito e as leis da física ainda conspiravam para que os destinos permanecessem imutáveis, protegidos pela chamada “conjectura de proteção cronológica”.
Era mais um desafio que teriam que vencer, talvez viajando para o futuro.

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Janeth Oliveira Naves

E-mail: janeth_naves@hotmail.com

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