Uma noite inesquecível


Janeth Oliveira Naves

Em uma noite tranquila de 1968, minha mãe e eu assistíamos à televisão na sala e, como era comum naquele tempo, a porta da frente estava apenas encostada. Súbito, ouvimos passos de uma pessoa correndo na calçadinha que ligava o portão ao alpendre. A porta se abriu abruptamente e entrou o primo João esbaforido; a camisa rasgada, o rosto vermelho e os braços arranhados. Depois de respirar um pouco, ele nos explicou que, ao voltar do cursinho, vira uma movimentação de pessoas na frente da Faculdade de Direito, que ficava ali perto. Aproximou-se para ver o que estava acontecendo e, antes que pudesse compreender que se tratava de um protesto, foi agarrado por um policial, que torceu o seu braço e o empurrou em direção a um camburão. Em meio ao tumulto, ele conseguiu se soltar e correr até a nossa casa. Só então percebeu que perdera os seus livros.
Ouvíamos perplexas àquele relato inusitado. Eu, na ingenuidade de meus dez anos, ia juntando as pontas da história, para entender os motivos do protesto e por que se prendiam pessoas pacatas como o meu primo. Mamãe tentava acalmá-lo, trouxe-lhe um copo com água e limpava os ferimentos dele com uma toalha molhada quando ouvimos uma batida forte na porta. Ela fez sinal de silêncio e me ordenou que olhasse primeiro e só abrisse se fosse uma pessoa conhecida. Muito pequena para minha idade, tive que me esticar na ponta dos pés para abrir a janelinha de madeira que ficava no alto da porta e só consegui ver a testa e o quepe de um policial. Compreendi a gravidade da situação. Fechei rapidamente a portinhola, fiz uma careta de pavor e sussurrei: “É a polícia!”
Minha mãe puxou João lá para dentro, parou um instante no corredor, ajeitou o vestido, respirou fundo e foi abrir a porta. Conversou rapidamente com um homem e logo voltou. Olhou para mim e, com os lábios ainda descorados, disse que era o guarda noturno da vizinhança que viera receber a contribuição mensal. Ela o dispensou pedindo que retornasse no dia seguinte. Naquele tempo, os vizinhos pagavam um senhor que percorria a rua de bicicleta durante a noite, fazendo a ronda e tocando o seu apito de tempos em tempos.
Saímos procurando João pela casa, mas não o encontramos. Vimos a porta da cozinha aberta e fomos para o quintal. Chamamos por ele várias vezes enquanto andávamos para lá e para cá. Depois de algum tempo ouvimos um farfalhar de galhos se movimentando e a voz dele respondendo do alto de uma mangueira que ficava lá no fundo, no lugar mais escuro do terreno. João desceu da árvore com dificuldade e veio caminhando, meio sem rumo, tateando as sombras. Ao se aproximar, com a voz trêmula, praguejou contra a escuridão para justificar o seu andar cambaleante.
Em casa, conseguimos até rir daquela terrível coincidência. Caçoando de si mesmo, João nos contou que teve medo de ser encontrado, correu para fora e só se deu conta de onde estava quando teve que fazer o caminho inverso para descer do galho mais alto da mangueira.
Naquela noite, tomada de culpa pela confusão que causei, e ainda sobressaltada pelos fatos excepcionais, demorei a pegar no sono. Tudo que acontecia fora da nossa rotina pacata era motivo para alimentar a minha imaginação por um bom tempo.









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Janeth Oliveira Naves

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