Janeth Oliveira Naves
Cresci admirando aquela peça de porcelana. Minha avó a chamava de púcaro, uma palavra tão pouco usual quanto o próprio objeto. O formato gracioso exibia um fundo bem elaborado em azul e branco, pequenas flores avermelhadas bem distribuídas, bordas e pés dourados que lhe conferiam elegância. Parecia ser antigo e apresentava um tipo de beleza das coisas raras, que não se produzem mais.
Era o adorno mais vistoso do quarto mobiliado com simplicidade da minha avó. Sempre que eu entrava lá, meus olhos eram atraídos por ele. Depois de décadas e décadas de admiração silenciosa, um dia ela me contou a sua história.
— Sabe que foi você que me deu esse púcaro?
— Eu? Como assim?
Ela deu aquela risadinha tão familiar e continuou.
— Sim, foi depois de uma arte que você fez. Você devia ter uns três anos e quebrou um púcaro verde de porcelana, lindo, que era a única lembrança da minha mãe que eu ainda tinha.
Ela me contou que minha mãe ficou arrasada e, depois de algumas semanas, ela me trouxe pelo braço e em minhas mãos havia um presente para ela. Era esse púcaro, que havia sido encomendado na única loja da nossa cidadezinha.
— Então será por isso que eu gosto tanto dele? — perguntei.
— Pode ser. E eu vou te dar de presente. Você vai cuidar dele quando eu não estiver mais aqui.
Agradeci, experimentando sentimentos contraditórios; alegre com o gesto, mas triste por compreender o seu significado.
Minha avó já tinha reservado uma caixa forrada de jornais para acomodar o valioso presente e eu o recebi com todo cuidado, como se minhas mãos não fossem capazes de protegê-lo o suficiente. E para todos que pediam para vê-lo eu o mostrava dentro da caixa sem permitir que ele saísse de lá.
Eu e meu marido retornamos para Brasília transportando o presente como se fosse um bebê recém-nascido e aquele foi o assunto principal da nossa viagem de volta. Já em casa, pensei que uma boa lavada iria lhe restituir o brilho e comecei o minucioso trabalho. No momento em que enxugava a tampa, o telefone da sala tocou. Eu a envolvi em um pano e a acomodei no escorredor de pratos. Quando estava falando ao telefone, estremeci ao ouvir o barulho da peça se espatifando no chão. Corri para a cozinha e vi meu marido paralisado, branco de susto, olhando os cacos espalhados. Ele sabia do meu apreço por aquela peça
Ficamos ali os dois mudos, estarrecidos, por diferentes motivos. O acidente acontecera quando ele, vindo da área de serviços, viu o pano de pratos sobre o escorredor e resolveu pendurá-lo no porta-toalhas. Ele tentou se explicar enquanto recolhia os pedaços pelo chão e eu continuei imóvel, sem conseguir emitir qualquer tipo de reprimenda. Só fui capaz de devolver a parte de baixo do púcaro para a sua caixa. Guardei a minha preciosidade no armário e amarguei por alguns dias a silenciosa dor da perda. Não falamos mais sobre o assunto, até que meu marido me fez uma surpresa. Às escondidas, ele havia conseguido restaurar o meu púcaro azul; colou pedaços, reconstituiu partes que se desintegraram e pintou o lado interno da tampa com tinta especial para porcelana. Fez um trabalho primoroso de paciência e arte, movido pelo grande remorso. Uma tarefa que demandou pesquisa, determinação e habilidade. O resultado não podia ser melhor.
Eu tinha de volta o objeto dos desejos da minha infância, que representava a presença daquela avó que adoçou a minha vida; um presente carregado de história, afeto e simbolismo. E agora, com o valor agregado pela história da sua restauração, ele ocupa um lugar de destaque na minha casa e todos sabem que devem tocá-lo com reverência.