Janeth Oliveira Naves
Da janela do caminhão de mudanças, Rosa Maria olhava a paisagem verde que sempre a encantara e nem isso conseguiu afastar as preocupações. A firmeza aparente escondia as dúvidas e o medo. Aquele passo não teria sido ousado demais? Não havia nenhuma garantia. A única certeza é que teria grandes desafios pela frente. Deixara o certo pelo duvidoso.
Os irmãos tentaram dissuadi-la do que achavam se tratar de uma aventura arriscada. A mãe, que ficou para trás, foi a única a encorajá-la. Mas foi o seu feroz instinto materno que a fez se decidir pelo caminho mais tortuoso. Não queria que os filhos crescessem no ambiente de determinismo de uma pequena cidade, sonhava destinos mais promissores para eles.
Olhava para as crianças sentadas, espremidas ao seu lado. Elas seguiam quietas, nada da agitação habitual. Pressentiam, pelo olhar e pelo respirar da mãe, o que viria pela frente. Apesar das incertezas, acreditavam cegamente; a mãe já tinha insuflado neles sonhos, ambições e uma firme confiança no futuro.
— Tudo vai dar certo! Um dia vamos ter uma casa bem grande e um quarto cheio de dinheiro. E nós ainda vamos nos lembrar com saudade desse tempo — falava para os filhos, em um tom que misturava brincadeira e convicção.
Seu Arlindo, o motorista, tentava entabular uma conversa. Admirava-se da coragem daquela mulher simples, desprovida de vaidade, mas de uma beleza austera que dispensava qualquer adereço. Ela respondia às perguntas de forma monossilábica para ter mais tempo de se entregar ao planejamento das próximas etapas. Na sua mente ia traçando cada passo que iria dar, como iria solucionar cada problema: a escola para as crianças, a arrumação da casa, o dinheiro contado para mais um mês e nada mais.
Despedir-se da mãe, dos irmãos e da memória do marido foi difícil. Quando se casaram, há dez anos, planejaram construir uma vida juntos. Sonharam possuir um pedaço de chão onde pudessem plantar, criar animais e assistir juntos, os filhos crescerem e multiplicarem o milagre da terra. A morte de Antônio chegou de repente. O coração, atacado pela doença de Chagas não aguentou a pesada lida. Tudo se passou tão depressa que não deu a ela tempo para sucumbir. Passados dois anos, mais um ato de sua vida ia se descortinando. Ela chegou à capital junto com a pouca mudança e os três filhos pequenos, porém os seus sonhos e sua vontade eram grandes; tão grandes quanto as dificuldades que ela sabia que teria que enfrentar. Não seria apenas uma mudança de endereço. Haveria o estranhamento inicial, a cidade grande, o trânsito, o desconhecido, a adaptação das crianças, a busca de novos clientes e o afastamento dos familiares que eram o único apoio que ela conhecia.
Foi difícil fazer caber tudo no barracão apertado em uma rua movimentada de um bairro operário da capital. Era o que podiam pagar naquelas circunstâncias, mas era um lugar seguro e perto de uma boa escola, itens imprescindíveis para Rosa Maria. Eram muitas as diferenças com as quais teria que conviver. Da sua casa, no bairro alto da pequena cidade, podia avistar os morros verdes, as árvores floridas e os campos que se estendiam por todos os lados. Na nova moradia, teria que se contentar com a vista do pequeno pátio e do outro barracão com o qual dividiam o lote. Suportaria tudo, porque o propósito era maior.
Viver na cidade grande exigiria dela muito esforço. Não tinha outra renda e a única saída era confiar no seu dom para a costura e investir na procura de clientes. Na sua pequena cidade não podia cobrar um preço justo pelo seu trabalho e, na cidade grande, haveria de existir mais pessoas precisando de seu trabalho e em melhores condições para pagar um preço justo. Terminada a arrumação, Rosa Maria foi até o muro, subiu em um banquinho e com dificuldade fixou a placa feita pelo irmão.
COSTURA-SE PARA HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS.
E começou a espera. Aos poucos, foram aparecendo, um cliente depois outro e mais outro, até precisar se estender noite adentro. A iluminação não ajudava, mas tinha que aproveitar enquanto as crianças dormiam. Quando movimentava os pés no pedal da máquina, sonhava com os filhos formados, em bons empregos no centro da cidade. Imaginava cada um possuindo uma casa e chegando para visitá-la em seus carros. Estacionariam na calçada e entrariam satisfeitos depois de um longo dia de trabalho. E obtinha não se sabe onde, energia para continuar.
Há pessoas que escalam montanhas, outras exploram lugares desconhecidos ou o fundo dos oceanos, desafiam a gravidade, enfrentam feras e se arriscam em alta velocidade. Querem demonstrar coragem? Dizem que não. Falta de apreço pela vida? Reiteram que não. Independente do que as move, o fato é que, em muitos casos, seus feitos são destacados, seus nomes reverenciados e suas mortes noticiadas.
Mas o que dizer de pessoas que lutam silenciosamente pela própria sobrevivência, enfrentando obstáculos, para muitos intransponíveis? Todos nós conhecemos alguns desses seres invisíveis que, sem terem com quem contar, trabalham sem descanso, dia após dia, ultrapassando barreiras e vencendo seus próprios limites. O que as motiva? Sonhos, planos, esperança ou fé? Independente do que as move, o fato é que, seus feitos não são lembrados, seus nomes são esquecidos e suas mortes, ignoradas. Essas criaturas passam despercebidas pelo Estado, pela mídia e não inspiram influenciadores.
Décadas depois, aquelas crianças, que dormiam e acordavam vendo Rosa Maria costurando, materializaram os seus sonhos. A filha mais velha, administradora de uma grande empresa, ostenta o retrato da mãe em seu ateliê de trabalhos manuais. O menino do meio emoldurou a placa de anúncio de costura e o colocou no seu escritório de advocacia. A filha caçula, engenheira, exibe com muito orgulho, a primeira máquina de costura da mãe como importante peça de decoração na sala de seu apartamento.
Rosa Maria morreu anonimamente.