A voz que o tempo apagou


Janeth Oliveira Naves

Haverá um dia em que alguém ouvirá o meu chamado. Posso sentir que, em um futuro distante, uma pessoa que não carregará o meu sobrenome, mas que terá o meu sangue, será seduzida pela minha história. Cinco gerações nos separarão, ainda assim ela sentirá o profundo desejo de desvendar os mistérios enterrados com as suas raízes. Apesar de não conseguir rastrear as minhas origens, como eu vivi, nem mesmo quantos filhos tive, ela tentará escutar os ecos da minha voz nas raras menções ao meu nome, e se esforçará para encontrar palavras que preencham as lacunas.

Quando a curiosidade for despertada, todas as pessoas que nos ligam já terão morrido e, com elas, a verdadeira versão dos fatos. Ninguém saberá como sou fisicamente, não haverá pinturas do meu rosto, e as casas que habitei não guardarão qualquer vestígio da minha presença. Tampouco saberão o que vivi nesses tempos de política efervescente, nessas paragens longínquas, onde as mulheres não têm direitos e os seus feitos são apagados como os sobrenomes que perdem quando se casam.

Essa pessoa invocará suas ancestrais para que a iluminem no caminho que a guiará até a verdade e desafiará o esquecimento, fazendo inferências a partir de fatos contraditórios e sem testemunhas. Olhando para o futuro, posso sentir que ela esbarrará em obstáculos e desistirá algumas vezes, mas, convocada, eu lhe soprarei curiosidade e inspiração para que não esmoreça e retome o fio da minha vida. A necessidade de reparação a perseguirá. Em silêncio, usando como arma apenas a escrita, ela buscará reabilitar o meu nome e usará a imaginação para exumar a minha história, pois poucos serão os registros que comprovarão a minha passagem por esse mundo – apenas o artigo de um pequeno jornal do interior do Brasil, com uma acusação caluniosa, afirmando que cometi um grave crime.

Não posso levantar a voz para contar a minha versão, ninguém acreditaria e poderia despertar ainda mais a fúria dos caluniadores. Afinal, quem sou eu para que me escutem? Sou apenas a sombra do homem ilustre que veio de Portugal com uma grande missão, cuja vida e realizações ficaram bem documentadas: um advogado brilhante, formado com honras em Coimbra e designado para ser desembargador no Brasil.

Passou pelo Rio de Janeiro, São João Del Rei, Pernambuco e, aos vinte e oito anos, assumiu o cargo de Ouvidor Geral da distante Capitania de Goiás e, quando esta foi dividida, foi nomeado ouvidor da recém-criada Capitania de São João de Duas Barras, ou simplesmente Comarca do Norte, como era chamada. Devido à sua grande capacidade, além de Ouvidor geral, ele também foi designado para altos cargos, como desembargador da Casa de Suplicação, instância máxima da magistratura no seu tempo.

Quando o conheci, seu nome já era reverenciado e eu, uma obscura “filha da terra”, como qualificavam, a nós, brasileiras. Ele se apaixonou por mim e eu fui o amando aos poucos. Apesar da proibição de casamentos entre portugueses ilustres e nativas plebeias, nós nos unimos e passamos a enfrentar toda sorte de desafios. Se houve ou não algum empecilho ao meu casamento com esse nobre homem, será mais um mistério que envolverá a minha pessoa.

Eu o apoiei em todas as suas empreitadas e o acompanhei em viagens intermináveis, através de estradas rudimentares, em lombos de burros ou em barcos precários por rios desconhecidos. Nossos filhos foram nascendo em diferentes cidades, e eu sempre ao seu lado. Os encargos que ele recebeu tornaram-se cada vez mais complexos e somente um homem dotado de qualidades raras seria capaz de executar.

Eu compreendia os seus arroubos políticos e a sua sede de realizações em um cenário carente de tudo, a começar pela necessidade de arrebanhar pessoas que se dispusessem a povoar a vastidão dos sertões goianos. Por vezes, devido ao isolamento extremo e às dificuldades de comunicação, as suas articulações políticas e administrativas ultrapassavam a esfera de atuação dos magistrados portugueses, como a liderança do movimento separatista que exigia o desmembramento e a autonomia da Comarca do Norte, contrariando a ordem e os interesses dos governantes do sul.

Depois de vinte e quatro anos de vida em comum, passávamos por um período conturbado e foi nesse clima político de insatisfação e revanche que se deu a trágica morte do meu companheiro, fato precedido e sucedido por assassinatos de portugueses influentes.

Os executores de alguns desses crimes foram identificados, e não foi possível esfumaçar os rastros da retaliação política. No episódio que envolveu a minha família, não houve testemunhas e, embora todos conhecessem as motivações e as circunstâncias, a falsa acusação contra mim foi convenientemente engendrada e publicada. Fui acusada de matar o amor da minha vida, o marido que respeitei até à veneração, o pai dos meus filhos, o homem mais culto, empreendedor e corajoso que já andou por essas terras.

Este será o único vestígio que minha descendente encontrará: o arquivo de um matutino, um dos poucos que existiam no meu tempo e lugar; o mais importante veículo de comunicação escrita que circulava nos ermos de um Goiás quase medieval. Na época do assassinato, as notícias da fazenda, onde tudo aconteceu, demoravam semanas para chegar até a cidade onde era impresso o referido jornal e, de boca em boca, as histórias iam ganhando versões que se somavam à imaginação de quem escrevia e aos interesses dos que patrocinavam.

Embora, no futuro, os historiadores deem como certa a motivação política para essa morte, a conveniente acusação de fato existiu – uma versão com requintes de fantasia e desrespeito, afirmando que mandei fabricar uma bala de prata para executar meu esposo e que a causa seria uma questão de “barra de saia”. A falta de provas despertará indignação contra a denúncia motivada pelo desejo de acobertar os verdadeiros assassinos. A maior evidência da irracionalidade da acusação será a inexistência de qualquer processo criminal contra mim, além do registro de como as autoridades da época agiam para garantir total obediência e de como operavam para sufocar qualquer tentativa de subverter a ordem vigente. Como é possível acreditar que o assassinato de uma pessoa tão ilustre, conhecendo-se a autoria, ficaria impune sem qualquer tipo de investigação?

Restarão inúmeras indagações, porém o que mais inquietará essa descendente será a suposição de como foi a minha vida depois daquela tragédia. Ninguém será capaz de imaginar o que isso significou para uma mulher que, embora acostumada ao silêncio, teve que suportar o próprio luto, o sofrimento dos filhos e o peso das suspeitas. A sede de justiça ficará pairando sobre a minha família, até que alguém com o meu sangue se proponha a reabilitar o meu nome. Algo a impelirá – talvez alguma motivação espiritual que desconheço ou, quem sabe, a veia literária e investigativa que chegará a ela junto com a velhice.

NAVES, Janeth de Oliveira Silva. A voz que o tempo apagou. In: Morada do Silêncio. Coleção de contos Segredos de família. 1. Ed. São Paulo: Grupo Editorial Letras Negras, 2025. p. 7-11.

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Janeth Oliveira Naves

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