Janeth Oliveira Naves
Almodóvar e o Tocantins
Na penumbra, fez-se o silêncio. O filme começou.
O título, Dor e glória, roteiro e direção de Almodóvar. Uma cena me arrebatou. A trilha sonora e as imagens dispensavam palavras, cores vibrantes, um dia de sol, um rio de águas cristalinas que corriam ligeiras, vegetação exuberante nas margens, roupas estendidas sobre as pedras, lençóis brancos balançando ao vento. Um grupo de mulheres lavava roupas, cantando e conversando, enquanto um menino brincava entre elas. A câmera se movimentava com lentidão, nos permitindo sorver a beleza de cada detalhe.
Mesmo que eu não soubesse do caráter autobiográfico da obra, a poesia das imagens não deixava dúvidas: quem concebeu e dirigiu a cena viveu aquela experiência. De todas as produções de Almodóvar, esta é considerada a mais pessoal, pelos profundos mergulhos na história e nas dores do autor, e pela exploração de suas memórias, incluindo flashbacks da infância que viveu nos anos 60.
Sempre que assisto aos filmes dele, já espero por impressões fortes e provocativas, mas desta vez fui surpreendida, as imagens arrancaram lembranças, há muito adormecidas. Eu já havia estado em um cenário semelhante, com personagens semelhantes, e hoje, alguns anos depois, essa cena específica continua viva em minha memória, assim como permanecem vivas as imagens de um episódio similar que vivi décadas atrás.
Depois da morte do meu pai, de tempos em tempos, minha mãe nos levava a Porto Nacional, no Tocantins, para visitar nossos avós e tios paternos. Na juventude, ela também havia vivido naquela cidade. Fora morar ali para estudar, lá conheceu meu pai e se casaram. Depois de alguns anos, já com quatro filhos pequenos foram viver em Goiânia.
Nos tempos, em que a Belém-Brasília ainda não era asfaltada, a viagem durava quase dois dias, uma aventura para nós, acostumados com a vida pacata da capital. No entanto, logo esquecíamos as dificuldades do trajeto porque a nossa estada lá era sempre divertida e cheia de novidades.
A cidade era pequena e acolhedora. Tinha um centro histórico colonial e era banhada pelo rio Tocantins, de águas mornas e transparentes, de um azul profundo. Além do rio havia também os seus afluentes, pequenos ribeirões muito apreciados para banhos e para a lavação de roupas, na época em que poucos na cidade tinham água encanada.
Numa tarde de sol abrasador, minha tia, que nos hospedava, convidou mamãe para irem à "fonte", como chamavam o local exclusivo para as mulheres, onde elas podiam estar em total privacidade. Para nós, as crianças, qualquer convite era sinônimo de aventura.
A caminhada durou cerca de quinze minutos, rapidamente atravessamos o centro da cidade e nos embrenhamos por um caminho estreito, até ouvir os sons das corredeiras. Por entre as árvores, avistavam-se as águas verdes do ribeirão que se espraiavam sobre pedras enormes. A vontade era de me lançar naquelas águas convidativas, mas as mãos firmes de mamãe seguraram a mim e ao meu irmão caçula, depois de depositar a trouxa de roupas num lajedo. Fomos advertidos a ter cuidado e a ficar sempre por perto.
A presença de várias mulheres, dentro e fora da água, chamava atenção; mulheres de todas as idades que conversavam animadamente. Algumas se banhavam, outras ensaboavam e esfregavam roupas, mergulhadas até os joelhos no ribeirão, outras abriam peças sobre os lajedos para quararem ao sol ou estendiam as já lavadas sobre os arbustos para secarem. Elas não usavam maiôs ou biquínis, suas formas, cores e volumes se exibiam, aderidos aos tecidos molhados de suas combinações e anáguas, roupas de baixo que não se usam mais. Não me lembro de ver nenhuma delas calada ou triste naquele dia. Faziam um trabalho pesado, mas pareciam felizes, compartilhando suas histórias, o sabão, as merendas, e ajudando umas as outras a cuidarem de suas crianças. Certamente, todas deviam ter lá as suas mágoas e dificuldades, mas ali, cercadas de natureza e de solidariedade, deviam lavar também as suas dores, deixando-as escorrer como a espuma levada pela correnteza.
Lembro de ter me divertido bastante naquele dia, embora ainda não pudesse compreender que aquela cena ficaria gravada para sempre. Apesar de ser ainda uma criança, tal como Almodóvar, consegui captar a beleza e a energia que o conjunto emanava.
Depois de algumas horas, o tempo começou a mudar. Nuvens cinzentas e pesadas apareceram no horizonte, galopando no céu em nossa direção. Relâmpagos e trovões anunciaram uma tempestade. As mulheres se alvoroçaram, as vozes e os semblantes também se nublaram. Começaram a recolher as roupas e abandonar o local. Foi a primeira vez que ouvi falar da ameaça de uma "tromba d’água", como era denominado o fenômeno da subida rápida do nível dos rios quando chove forte nas cabeceiras. Havia também o perigo dos raios, frequentes na região.
Minha mãe e tia fizeram o mesmo. Recolheram as roupas e saímos às pressas do lugar. Eu corri na frente pelo caminho que dava acesso ao ribeirão e em um determinado momento parei para esperá-las. Ao me voltar, vi uma imagem que ficou congelada e permanece nítida até hoje. O vento passava por entre o maciço de árvores da mata ciliar e retorcia os galhos numa coreografia assustadora. Por trás, o céu cor de chumbo, exibia nuvens apressadas, riscadas por relâmpagos brilhantes.
Pelo caminho estreito, agora sérias, as lavadeiras corriam em fila, arrastando suas crianças com uma das mãos e, com a outra, equilibrando trouxas de roupa sobre as cabeças.
Ao desenterrar essa memória, senti vontade de ter um canal de comunicação com Almodóvar para lhe contar o quanto a cena do seu filme me emocionou. E sigo intrigada com o fato de duas pessoas como ele e eu, que vivem tão distantes, geográfica e culturalmente, terem sido encantados por experiências de profunda semelhança. Na minha compreensão limitada, conjecturo que, em essência, temos sentimentos em comum. A pureza de um momento cercado de afeto, vivido num cenário de grande beleza, é capaz de sensibilizar e de repercutir igualmente, estejamos nós na Espanha ou no Tocantins.
Se eu pudesse, eu diria a Almodóvar: você conseguiu. Você me levou para dentro da sua alma, e se eu fizesse um filme da minha vida, talvez eu o plagiasse e também começasse por uma cena mostrando lavadeiras alegres em um ribeirão, crianças brincando e roupas brancas sendo balançadas ao vento.
Crônica classificada em segundo lugar no III Prêmio Ruth Guimarães de Crônicas da União Brasileira de Escritores.